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Findada a reunião, restava apenas SAUL sentado em uma cadeira afanando sua barba alva. Vez ou outra os dedos prendiam entre os fios da crespa barba. Com os olhos fitando o vazio o esguio homem parecia mais morto do que vivo. HAYA. JOEL. Minha pequena criança... Na mente de SAUL, passado e presente caminhavam lado a lado como se o presente não pudesse existir caso o passado não acontecesse ao mesmo tempo em que o presente acontecia. Você ficaria feliz em ver o homem o qual seu filho se tornou, meu amigo. Sua amizade com o tecelão JOEL sobreviveu ao tempo, á tragédia e ao destino desconhecido que o amigo teve. Aonde você foi? Sua amizade com o tecelão era questionada por todos, menos por JOEL. Estivera presente nos momentos mais importantes da vida do amigo. No dia de sua união com HAYA, no dia em que seus pais se mudaram da cidade e no nascimento de primogênito do amigo. E estava presente ainda quando a esposa do amigo foi apedrejada. HAYA...

Não passara uma noite sequer em que não sonhasse com HAYA. Sua alegria, seu jeito de falar, o balançar de seu cabelo, o modo como andava, o seu perfume. Sempre banhada com o Óleo da Alegria de Jasmim... Em muitas noites sonhava que conseguira evitar o apedrejamento.  Nesses sonhos, ele era o Imperador que chegava em sua biga de guerra e salvava a esposa de seu amigo. Que sempre lhe agradecia com um beijo. Ora secos, ora molhados. Em outras noites sonhava que tinha a força do lendário juiz Sansão e despedaçava todos os soldados com uma mandíbula de jumento e banhava todo seu corpo com rios vermelhos que fluíam dos romanos feridos. Mas o sonho que mais o perturbava era o que a esposa de JOEL era sua própria esposa e que o fatídico episodio de seu apedrejamento jamais ocorrera.

Nunca mais fez uma oração. A antiga fé dos judeus já não fazia mais sentido para ele. Os ritos de celebração e expiação que participara por um longo período de sua vida, eram agora apenas lembranças de um passado que queria esquecer. O desenvolvimento proposto pelos helênicos lhe parecia mais interessantes do que confiar sua vida a um deus que a qualquer momento poderia irar-se e através de seus seguidores derramar seu furor sobre os fiéis adoradores. Até quando será assim, HaShem? Por muitos anos compreendia que a sorte de JOEL fazia parte da justiça divina, devido o amigo casar-se com a bela moça filha de samaritanos. O pecado de HAYA era ter nascido em ventre odiado pelos seguidores de Deus.

- Pensei que já tivesse indo embora. Falta-lhe o sono?

- O sono me abandonou quando seu tamanho não era superior ao seu joelho, BARRABÁS.

- E o que você faz, quando todo mundo dorme?

Lembrar e esquecer, a cada instante...

­- Sonho acordado com nossa vitória. E quando consigo dormir, sonho com nossa derrota.

- Dessa vez será diferente. Podemos ser em menor número comparado a outras tentativas, mas somos mais organizados. Além disso, iremos atacar as estruturas que abalarão o domínio estrangeiro em nossa terra. Não foi isso que você disse?

Continuou afanando a barba crespa e apenas balançava a cabeça concordando com as palavras de BARRABÁS.

- SAUL, depois da demonstração dessa noite, nossos irmãos ficaram mais encorajados á enfrentar um soldado romano. Após algum treinamento, poderão ser mortalmente eficazes quando iniciarmos o ataque. Seremos como um anjo da morte, escondidos no meio da multidão. Devolveremos a terra ao povo e voltaremos a ser donos de nós mesmos. Como antigamente.

- “Antigamente” já faz tanto tempo, que nem mesmo as árvores que cercam Jerusalém podem se lembrar disso. E é exatamente por isso que estamos aqui. Iremos trazer o passado para o presente e fazer com que o futuro tenha a mesma cor e cheiro que o passado tinha. Cheiro...

- Sim!

Levantou-se de sua cadeira e começou a caminhar em direção da porta que dava para a saída, quando BARRABÁS lhe perguntou:

- SAUL, você nunca me disse a razão de ter escolhido SHAMIR para a demonstração dessa noite. Ele é mais novo do que a maioria de nós e...

- Tem mais motivos do que nós para antecipar o derramamento de sangue romano – interrompeu SAUL.

- “Mais motivos”? Que motivos seriam estes?

Parou de caminhar e de costas para BARRABÁS, disse:

- Há mais motivos para rebelar-se contra os romanos do que você possa imaginar.

- Mesmo? O que você quer dizer com isso?

- Tudo e nada.

- Hein!?

- Permita-me lhe contar uma história. Há muitos anos atrás eu conheci um homem jovem e cheio de vida. Seu nome era JOEL. Ele era filho de um abastado comerciante, de alto prestígio em Jerusalém e gozava de livre trânsito entre os líderes do povo judeu. JOEL fora educado desde cedo na tradição dos Pais e por insistência de seu pai, era muito dedicado ao estudo da Tora e do Talmude. Ele se dedicava muito para satisfazer o desejo de seus pais. Nunca precisou trabalhar, apenas estudava. Era um filho de bom coração e sempre que podia ajudava a criada da casa á buscar água no poço.

- Hunf. Um homem que estuda todas essas leis. Ele tem meu respeito. Quando pequeno tinha vontade de aprender, mas o único filho homem do ventre da minha mãe tinha que ajudar meu pai cansado pelos muitos anos.

- Em uma dessas idas ao poço, ele conheceu uma bela jovem, que viria a ser a mais bela mulher que já pisou nesta terra. As idas ao poço ficaram mais freqüentes e, com isso, eles se apaixonaram. Mas havia um problema. Ela era filha de samaritanos.

- Já vi que isso terminou em merda.

- Eu não usaria estas palavras, mas sim. Você compreende a dimensão do conflito entre judeus e samaritanos?

- Bem, eu não conheço muita coisa. Só sei o que os outros me disseram. Você que é o sacerdote, diga-me onde começou tudo isso.

- “Fui”, sacerdote – enfatizou. Mas sobre o início disso tudo não há consenso. O mais provável é que isso seja um conflito que já se arrasta desde a morte do rei Salomão e seu filho, incapaz de gerir um reino, viu o povo ser divido em dois. O povo de Israel nunca foi unido de verdade. Sempre estamos nos encontramos divididos entre interesses próprios e somente nos unimos quando não damos conta de resolver algum conflito sozinho. Os doze clãs de Jacó nunca foram unidos. José é prova disso. Nosso povo se uniu em torno da figura do líder MOISÉS para fugir do Faraó do Egito, mas não demorou um ano sequer depois disso e já estabelecemos acordos e regras para poderem controlar o exercício da escravidão sobre o próprio irmão, filho do mesmo patriarca.

- Que merda!

- Meu gigante, não importa onde tudo começou. O que importa para as pessoas é a motivação do que originou o conflito.

- Como assim?

- Explico. Não importa onde ou quando tenha iniciado o conflito, seja por causa da capital do reino do Norte ou por causa da mistura de culturas e casamentos mistos e da pluralidade de deuses. Para alguns é interessante que um conflito exista e, assim, possa endossar uma caça aos samaritanos e vice versa. Não se esqueça, um povo dividido é alvo fácil para o menor dos adversários.

- Hum.

- Além disso, há também um episódio ocorrido há alguns anos atrás onde um jovem samaritano, um fanático eu diria, que teria invadido o templo dos judeus e lançado ossos de um morto num desses conflitos entre judeus e samaritanos, dentro do Santo Lugar do templo dos judeus. E á partir dali, todo religioso deste país tira uma parte de suas orações para amaldiçoar os samaritanos.

- Eu me lembro disso. Até hoje me lembro dos sacerdotes andando com roupa de pano de saco rasgada e jogando areia na cabeça. Aquilo me rendeu boas risadas, hahaha!

- O fato é que nunca foi julgado homem que, supostamente, teria lançado os ossos no templo. Sua identidade jamais foi revelada. Seu corpo jamais foi condenado pelo tribunal judaico. Seu apedrejamento nunca aconteceu. Porém a notícia de que um samaritano havia profanado o templo se espalhou com tanta velocidade que as pessoas jamais questionaram a ausência de um nome e de uma punição. Apenas a sombra de seu ato fundamentou o ódio que se espalhou como uma doença e que ainda hoje pode ser sentido. A punição que jamais ocorreu foi canalizada para todo um povo. E vamos tirar proveito disso.

- Como você sabe tudo isso?

- Como você disse, eu um dia estive próximo do serviço cúltico no templo.

- E o que aconteceu com JOEL e a mulher samaritana?

- O tempo passou e eles cresceram. E quando alcançaram certa idade, eles se casaram. Bom, não foi um casamento nos moldes tradicionais, mas eles se uniram e foram morar juntos. Aquilo foi pior do que a morte para o pai de JOEL. Envergonhado, ele se mudou da cidade. Uns dizem que ele foi para além da terra de Israel, ao leste. Outros dizem que foi para a capital do Império. Há ainda aqueles que dizem ter visto o velho comerciante pai de JOEL negociando ao extremo norte da Palestina. Não importa. O fato é que antes de partir ele deixou um presente para o filho.

- Que tipo de presente?

- Seu pai deixou-lhe uma Tora, um Talmude e uma máquina de tear.

- Máquina de tear?

- Naquele presente estava a última tentativa de um pai cego pela religião, de salvar seu filho. Para isso JOEL deveria seguir o caminho que seu pai lhe ensinou ou poderia viver em vergonha como um tecelão. E como bem sabe esta profissão não é indicada para homens. Um homem trabalhar como tecelão, casado com uma samaritana e desprezado pelo pai é uma marca semelhante a que é deixada pela lepra em nosso país.

- E por qual caminho ele optou?

- Pelos dois.

- Como isso foi possível?

- Assim como eu, JOEL trabalhou como sacerdote temporário no templo e como tecelão no tempo livre. Não demorou muito, ele e sua mulher, tiveram um filho. Alguns anos depois sua mulher, HAYA, se encontrava grávida novamente. A chegada da criança era esperada para o término do outono. Sua vinda ao mundo era desejada por todos. Inclusive por mim. Mas, devido a uma falsa acusação, sua mãe foi apedrejada em público e a pequena criança, ainda em formação, veio ao mundo com as próprias mãos.

- Do que ela foi acusada?

- Disseram que HAYA havia dito que o filho de suas entranhas era o Messias. Uma grande mentira – disse torcendo o nariz e rangendo os dentes.

- Como você pode ter tanta certeza, assim?

- Simples. Você é adepto a religião de nossa terra, mas lhe falta conhecimento desta, BARRABÁS. Não há espaço para messias e messianismos na fé professada em meio aos samaritanos. Quanto mais Messias de linhagem davídica. HAYA casou-se com um judeu praticante, mas não mudou seu credo.

BARRABÁS permanecia em pé, imóvel, duro como uma montanha que não é abalada pela maior das tempestades que se possa imaginar. Com a cabeça levemente abaixada olhava com olhos semicerrados para SAUL, aguardando atentamente o que seria dito em seguida. SAUL, ainda de costas para o homenzarrão, girou em sua direção sobre os calcanhares, sem sair do lugar e continuou:

- JOEL ficou muito perturbado após o incidente. Nunca mais foi o mesmo. Diante da cena da mulher apedrejada e o choro do bebê lutando para sobreviver entre o ventre e as pedras, sussurrava sem parar “SHAMIR, SHAMIR, SHAMIR”.

De punhos cerrados, BARRABÁS mantinha-se estático. SAUL caminhou em sua direção e disse:

- JOEL nunca mais disse uma palavra sequer. A loucura se apossou por completo de sua mente e com o passar dos dias, o jovem que um dia eu conheci foi dando lugar a um animal. Até que um dia ele desapareceu sem deixar pistas. Por um ano inteiro procurei por ele. Mas sem sucesso. Mas, antes de desaparecer ele deixou a Tora e o Talmude que ganhou de seu pai, junto ao bebê. Eu entendi que ele estava pedindo que eu ensinasse ao menino a fé que ele recebeu.

- E o que você fez?

- Mesmo sem mais acreditar em deuses, ensinei ao menino da melhor forma que pude.

- Que história maluca, SAUL! Como isso tudo pode acontecer? É difícil acreditar que uma criança pode sobreviver a um apedrejamento e fugir do ventre de uma morta.

- Eu não sei. Mas... – ergueu os olhos para o vazio e silenciou-se.

- “Mas”?

- Eu não tenho certeza. Posso estar sendo enganado pela minha mente cansada e ainda em processo de eliminação das mistificações da fé, mas enquanto ensinava o Talmude para o pequeno SHAMIR uma história me chamou atenção. Os sábios reuniram várias narrativas de outros povos e assumiram como se fossem sua própria história e numa explicação da história da criação do mundo, é relatada a história do Shamir.

- “História do Shamir”?

- Sim. Segundo a narrativa no sexto dia EloHim criou um pequeno ser, que deu o nome de Shamir. Era pequeno como um grão de cevada, mas com um alto poder de corte. Nem mesmo o mais duro material poderia impedir o Shamir de cortar. Ele é descrito como “mais duro que uma rocha”, “cortador de diamantes”. Tal ser sagrado teria sido utilizado pela primeira vez por Moisés ao construir um altar. Em outro relato, ele foi emprestado ao rei Salomão para construir o templo. Carregado no bico de uma ave Poupa, ele teria descido do paraíso para auxiliar o rei na construção. Apesar de ser muito poderoso, tal ser foi proibido por HaShem de ser utilizado em guerras entre os homens. Enfim, acredito que ao ouvir o choro da pequena criança no monte de pedras, JOEL tenha feito alusão a lenda dos sábios. Se bem me lembro, SHAMIR veio ao mundo na véspera do Shabat, assim como o Shamir. O choro da criança só pode ser ouvido após pousar um Corvo sobre as pedras que cobriam o corpo de HAYA. Quando souberam que JOEL repetia o nome do verme sagrado, espalhou-se a ideia de que ave que pousou sobre HAYA era um Poupa e não um Corvo.

- Hum. Então você criou os filhos de JOEL?

- Apenas um. O primogênito de JOEL enviei aos cuidados de um amigo, ao sul de Hebron, na cidade de Queriote. SIMÃO o seu nome.

- Queriote?

- Sim.

- E hoje, onde está este menino? Ele já deve ser um homem, certo?

- Ele está aonde ele precisa estar – virou-se para a saída da sala e em passos curtos começou a sair.

- Onde? – perguntou BARRABÁS.

Sem olhar para trás, respondeu:

- Ele está infiltrado entre os seguidores de um forte aglutinador de seguidores. Um homem a quem todos acreditam ser a ressurreição do profeta Elias. Um homem seguidor do nazirato, que atrai a atenção dos essênios, devido sua vida asceta.

- “As”, o que?

- Não importa. O que realmente interessa é que este homem, chamado João e apelidado de Batista, atrai multidões atrás de si. O primogênito de JOEL é a pessoa mais indicada para tomar o lugar de João Batista e trazer seus seguidores para nossa causa.

- E como ele fará isso? Se esse João for alguém capaz de dissuadir o povo de ouvir esse homem... Qual o nome dele?

- JUDAS. Seu nome é JUDAS. “Lutar pelo meu povo e morrer por ele se preciso for”. Eu diria que não se vence uma guerra sem o derramamento de algum sangue, meu amigo.