Estava quente, muito quente.
Havia muito tempo que não sentia um calor como este que estava sentindo agora. Será que estou sentindo esse calor por causa
das feridas? Já não se importava mais com a dor latejante nos pulsos.
O sangue estava mais grosso agora do que quando começou a sangrar. Há quanto tempo já estou aqui? Havia
perdido os sentidos e desmaiado e com isso a noção do tempo. O coração estava
batendo cada vez mais lento. Respirar doía. Chegou a hora? Já não sentia as pernas. Elas haviam endurecido e
estavam roxas. Sim, chegou o meu fim...
No chão estava a sua última
refeição que agora era a refeição de algumas moscas que também voavam e torno
de sua cabeça e que também entravam e saíam de sua boca. Não se lembrava de
quando havia desistido de espantá-las. O gosto de vômito em sua boca fazia com
que tivesse vontade de vomitar novamente. Se fizer isso novamente, meu estômago vai sair junto – pensou. De
sua narina escorria lentamente um filete de sangue grosso, o que tornava a
respiração mais difícil ainda. Arriscou levantar a cabeça para amenizar a dor
que fazia com que sua nuca pesasse como se estivesse carregando um cavalo sobre
ela. Foi em vão. Estava com o pescoço dormente. Tentou novamente. O
barulho que os ossos do pescoço fizeram foi como o som que uma árvore faz
quando tem sua queda iniciada. Forçou e bateu com a cabeça na madeira. Maldita madeira! – tentou dizer, mas não
conseguiu. Tudo que conseguiu fazer foi gemer como os dentes cerrados. Havia
carregado aquele toco de madeira envelhecida por mais de uma hora presa ás
costas e que agora estava á enfiar farpas em suas costas nuas.
Abrir os olhos iria lhe
aumentar a dor uma vez que o suor escorria em seu rosto como se tivesse acabado
de sair de um rio. O suor havia empoçado em seu rosto que pendia para a
esquerda. Manter a cabeça ereta não era possível, pois uma ferida que a madeira
abrira em seu pescoço estava latejando. Por
que não vem me buscar logo, Morte? Queria saber quanto tempo já estava ali
e tentou abrir um olho. Estava tudo embaçado. O sol estava quase totalmente em
riste. Passaram-se pouco mais de uma
hora... Só isso? Por um momento
pensou que seu sofrimento duraria uma eternidade diante daquele escaldante sol.
Deixou a cabeça cair e queixo bater como uma lança no peito, o que o levou a
ranger os dentes e tremer como um caniço ao vento.
O soldado que o vigiava também
estava suando. De tempo em tempo bebia água de um balde de madeira com uma
concha. Escorria água pelos cantos de sua enorme boca. Água! – tentou pedir ao soldado. Mas o som não saiu de sua boca.
Tossiu pela primeira vez desde que foi colocado naquela cruz. Uma tosse molhada
e com um bocado de sangue saiu de sua boca e acertou em cheio no balde de água
do soldado que fazia a guarda dos condenados. Ele jamais teria acertado o
balde se não fosse o vento quente e empoeirado que soprava. Em tempo
algum teria lançado tão longe o que veio junto a sua tosse. Sangue e vômito. O
soldado fixou os olhos no balde, incrédulo por aquilo que acontecera.
Lentamente ergueu os olhos em busca do infeliz homem que estava pendurado no
madeiro. Xingou numa língua que o condenado não compreendeu, mas logo percebeu
o ímpeto de sua fúria quando o balde foi arremessado em sua direção. Sua sorte
havia o abandonado por completo. O balde de madeira bateu com o fundo em suas
desprotegidas costelas fraturando uma ou duas. Desta vez seu gemido foi ouvido
mais alto do que antes, mas mesmo assim não pode ser compreendido. E para seu
azar nenhuma gota d’água tocou-lhe a pele para que se refrescasse. O soldado
continuou vociferando palavras em língua estrangeira por um bom tempo. Sim, chegou o meu...
Sentia-se completamente
abandonado naquele lugar. Onde está você?
– queria que ele estivesse ali. Mesmo que já não pudesse desfazer o que fez,
queria poder olhar para ele mais uma vez. Do seu lado, seu amigo também jazia
condenado junto a ele, alguns metros à direita. Depois de acordar do desmaio
não tinha ouvido a voz do amigo. Esforçou-se para girar a cabeça que estava
mais pesada do que antes de receber o balde do soldado no peito. Não conseguiu
girar muito sua cabeça, mas foi o suficiente para que com um olho visse o amigo
desmaiado e babando. Será que até mesmo
agora, no fim, ele me deixou morrer sozinho? Maldito... Não foi a primeira
vez que fora abandonado pelo amigo, mas certamente seria a última. Não tinha
forças para dizer seu nome. Sua boca tremia, mas os lábios não se desprendiam.
Definitivamente falar já não era tarefa fácil de se realizar. Tornou deixar a
cabeça pender sobre o tronco.
Agora as moscas agora
escolheram os seus ouvidos para entrar. Faziam um zumbido infernal e quando
conseguiam entrar no orifício suas asas faziam cócegas e davam uma sensação
terrível. Tentou levar os ombros às orelhas para espantá-las, o que foi em vão
uma vez que seus pulsos estavam presos aqueles pregos enferrujados. Puxar os
braços fez com que a carne rasgasse mais um pouco nas feridas abertas pelos
pregos. Lágrimas saíram de seus olhos esbugalhados e de sua boca escancarada
som algum se pode ouvir, como que uma tosse silenciosa, seca e vermelha. Estou condenado! A situação que se
encontrava foi se tornando cada vez mais real na medida em que o sofrimento
aumentava. Dos pulsos mais sangue brotou. Tossiu seco dessa vez. No agitar de
seu corpo o suor caiu no chão como que numa saraivada, mas a terra não ficou
muito tempo molhada. Bebeu cada gota de suor que o calor não conseguiu
evaporar. Sim, chegou o...
Ouviu o som de uma multidão
que fazia muito barulho vindo de longe. O som ia aumentando e quanto mais perto
chegavam melhor compreendia o que diziam. Com
quem estão tão enfurecidos? Perguntava-se quem seria o pobre demônio que
merecesse o acompanhamento de uma multidão tão grande daquelas que mesmo de
longe se podia fazer ouvir. Ainda não fazia ideia de quantos eram e tão pouco
conseguia imaginar quem seria aquele novo condenado tão odiado. Esqueceu-se de
sua dor por um instante e esforçou-se para erguer a cabeça. Dessa vez foi
preciso cinco tentativas para erguer a cabeça e apoiar na madeira seca ás suas
costas. Com um olho semicerrado via a multidão como um grande borrão. As
lágrimas haviam secado e num misto de suor, poeira e lágrimas seus olhos
pareciam estar com uma baba de camelo. Tornou a fechar os olhos e esperou se
aproximarem um pouco mais. O suor lhe fez lembrar sua ferida no pescoço. Quase
deixou a cabeça baixar, mas com enorme esforço manteve o pescoço ereto.
Abriu novamente os olhos e com
certa nitidez pode perceber que algumas aves de penas escuras voavam bem alto. Corvos. – estremeceu. Não queira
ser comido por corvos, mas as malditas aves sentiam o cheiro de morte. Dois desgraçados para suas malditas barrigas
– tentou rir de sua sorte. Mas não conseguiu. Sim, os malditos conseguem sentir o cheiro de dois defuntos erguidos á
eles, como uma oferenda – dessa vez soluçou e o guarda olhou para trás com
um sorriso de poucos dentes. Está se
divertindo? Está?! – queria ter forças para gritar aquilo. A multidão se
aproximava e algumas palavras já podiam ser compreendidas: “Mentiroso!”, “Blasfemo!”, “Anátema!”, “Filho... Belial!”, “Raboni!” e
algumas coisas que não compreendeu. Raboni?
Quem é esse homem que é odiado por uns e amado por outros e mesmo assim levado
á cruz?
A multidão se aproximava e
agora já podia ouvir o lamento de algumas mulheres. Seu coração começou a bater
rápido e forçou-se a abrir os dois olhos. A multidão acompanhava o homem quase
nu que com ajuda de outro homem vestido carregava um tronco de madeira, como o
dele. Dois carregando o madeiro? Á
medida que se aproximavam pode ver que muitos soldados continham a multidão
escoltando os dois condenados que mais pareciam um pedaço de carne e seu
açougueiro carregando aquele madeiro. Ele
vai morrer antes de chegar a ser pregado na cruz - concluiu. O homem quase
nu estava com o corpo todo escoriado e o sangue colado à pele lhe fazia parecer
que não tinha pele alguma, apenas carne viva. Seu corpo era coberto com um
manto vermelho e a cabeça adornada com um ramo de espinhos entrelaçado. Que mal teria feito este homem para tanto?
Não importa... é apenas mais um para encher os bicos dos malditos corvos.
Assim que a multidão chegou
próxima a eles, o condenado vestido foi liberto para ir embora. O que foi
liberado olhava para o condenado enquanto se distanciava. O que ficou tinha sua
vergonha coberta apenas por um manto escarlate e outro que amarelado manchado
de sangue. Saiu desvencilhando-se lentamente da multidão, sempre olhando para
trás e com a cabeça baixa foi-se embora. Por
que teriam vestido esse homem assim depois de... Azorrague?! Já tinha
ouvido falar do temido flagellum
taxillatum, mas nunca havia visto
alguém que o tivesse recebido. O corpo daquele homem estava cheio de furos e
dilacerações. O sangue seco e escuro era coberto por novas camadas de sangue
vivo que escorria.
Os soldados que guardavam os
condenados pendurados se apresentaram ao capitão da guarnição que escoltava o
novo condenado.
- Ave Caesar!
- Ave Caesar, e que ÉOLO nos salve desse calor, capitão.
- Algum problema por aqui,
soldado?
- Estamos sem água, capitão.
- Trouxemos alguma. Vamos
deixar vocês dois com um barril de água e quero que só saia daqui quando esse
maldito judeu já não respirar mais. Há muito em jogo aqui hoje...
- Quem é esse agitador?
- Isso não é da sua conta,
soldado. Cumpra com sua função e não me arrume problema. Ave.
- Ave!
O novo condenado estava caído
no chão e seu madeiro sobre ele. Os soldados circundavam o condenado caído
contendo a multidão que era composta por mulheres, que choravam, líderes da
comunidade judaica que estavam enfurecidos e homens comuns que se dividiam
entre os enfurecidos e os pranteadores. Dois dos soldados arrastaram o
condenado pelo manto para perto de onde estava o amigo crucificado. Assim que o
madeiro estava pronto para que fosse pregado o condenado, eles se o arrastam
como da primeira vez, e começaram a despi-lo por completo.
- Quem vai ficar com as vestes
do agitador? – perguntou um soldado ao capitão que estava com uma espada á mão.
Parecia estar com medo de que fossem atacados pela multidão.
- Foda-se, quem for ficar com
essa merda! Só terminem logo com isso.
- Posso ficar com o pano?
- Faça o que quiser, engula
isso, mas pendure rápido o agitador – disse o capitão que suava tanto que da
ponta de sua espada pingava gotas de suor que dele escorriam.
O capitão estava muito
nervoso. O tal agitador devia ser alguém que realmente tivesse dado trabalho aos
romanos. Pode ter dado trabalho aos
romanos, mas daqui a pouco vai dar alegrias aos corvos... Os demais
soldados, no entanto, brigavam entre si para ver quem ficaria com cada peça das
vestes do homem, enquanto puxavam o condenado, ainda desmaiado, para pregar no
madeiro.
Os soldados com um sorriso
sarcástico no rosto colocaram o condenado na cruz e fazendo sinal pedindo
silêncio um para o outro, contendo o riso, foram ajeitando o homem para que
pudesse receber o prego nos braços. Amarram os braços e pernas para que não
pudesse escapar e posicionando o prego deram a primeira marretada. UUUAAAAAAAAAAA! – acordou o homem. Os
soldados riam alto enquanto se preparam para as marretadas seguintes. Como que
crianças brincando, revezavam entre si dando as marteladas, fazendo com que o
condenado gemesse. Já não tornou a gritar como no primeiro golpe.
O condenado que observa aquela
cena do alto de sua cruz começou a sentir pena daquele homem. Havia se
esquecido de suas próprias dores mediante aquilo tudo. Olhou para os líderes da
comunidade que atentos observavam sem esboçar nenhum sentimento de pena.
Pareciam estar satisfeitos com tudo que acontecia diante de seus olhos.
Lembrou-se de seu pai, que trabalhou como sacerdote alguns anos atrás antes de
morrer. Aquela expressão que via em seus rostos, não era estranha a ele. Estão sentindo que esse homem está sendo
julgado pelo próprio Deus.
A diversão dos soldados chegou
ao fim, quando já não podiam mais martelar o prego. Um buraco havia sido feito
por um dos soldados e a cruz foi sendo levada para a primeira cova do
moribundo. O madeiro foi erguido sem muito esforço pelos seis guardas e o
condenado parecia estar desmaiado novamente. Mas não estava. Ficou com a cabeça
pendurada de olhos fechados e com a boca aberta, desperdiçando uma preciosa
saliva que viria a fazer falta mais tarde.
Embora o trabalho estivesse
concluído, apenas o capitão e três homens de sua guarda foram embora, deixando
de vigia os dois soldados que já estavam ali e outros trinta liderados por seu
Decano. Alguns cidadãos foram embora, também, mas muitos permaneciam ali.
Alguns soldados estavam agachados em volta das vestes ensanguentadas e
disputavam nos dados quem ficaria com elas.
Suas feridas voltavam a latejar. O sol voltou a
incomodar e o grito dos corvos aumentou. Mais
corvos. O pescoço ficou mais pesado, mas queria ver melhor o mais novo
pendurado e num esforço sobre-humano virou a cabeça para olhá-lo e a cabeça
pendeu para o lado apoiando-se no ombro. Doeu muito. Suas dores o impediam de
prestar atenção no lamento das mulheres que eram impedidas de se aproximarem do
condenado agitador. Sentiu as costelas rasgando sua carne. O soldado que
arremessara o balde havia lhe partido algumas costelas e agora senti que uma
delas estava tentando sair para fora do peito. Chegou o meu... antes que conseguisse terminar aquele pensamento,
viu que o condenado imolado estava com a cabeça erguida e olhava diretamente
para ele. Aqueles olhos!
Começou então a chorar.
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