Aquele trabalho era a única
herança que havia recebido do pai. Sentia-se como se tivesse feito aquilo a
vida toda. Na verdade havia passado não mais do que oito anos, mas para ele
fora uma eternidade. Embora gostasse do serviço prestado anualmente no Templo,
sempre o fazia sob enorme pressão. As histórias de pessoas que morreram no
serviço por não terem se purificado corretamente fazia com que suasse gelado
cada vez que cumpria alguma tarefa. UZÁ havia sido exemplo para todos que
serviam. Adonai tem temperamento instável,
diziam os mais velhos.
Estava na assembleia que
escolheria as pessoas que iriam trabalhar durante a aquela semana no Templo e sua
vontade era que fosse liberado para voltar para sua tecelagem. Naquele tempo,
havia sacerdotes por demais e sempre alguns eram liberados para voltarem a seus
afazeres pessoais. Começou a pensar no dinheiro que havia de receber do
pisoeiro JACOB que comprava seu trabalho para vender aos alfaiates. Não era um
emprego que lhe rendesse muito dinheiro, mas devido a sua esposa também
trabalhar como tecelã, podia passar mais tempo próximo a ela. Se não for sorteado hoje para o serviço,
receberei meu dinheiro, comprarei mais lã e voltarei para HAYA.
Contradizendo a vontade de sua
família, casara-se cedo. Ainda pequeno disse a si mesmo que casaria com HAYA. E
se casou com a jovem filha de estrangeiros. Um casamento precoce fez com que
JOEL tivesse que trabalhar com a tecelagem, uma profissão inferior e quase
totalmente feita por mulheres. Sua família nunca mais lhe dirigiu a palavra.
Embora não quisesse pensar que fosse por causa dele, eles se mudaram da cidade
para o norte da Palestina. O destino, ele jamais fora informado. Foi então
obrigado a aceitar a desprezada função de tecelão para suster sua casa. Embora
fosse uma profissão comum à época, sentia na pelo todos os dias que não era
trabalho para homens. Esse era mais um motivo de escárnio e zombaria que sofria
da comunidade e principalmente dos outros sacerdotes.
- Deixe-me adivinhar: pensando naqueles cabelos negros e no calor do abraço de HAYA, meu amigo?
SAUL era um dos poucos
sacerdotes que lhe dirigiam a palavra em assuntos que não diziam a respeito do
trabalho no Templo. Era seu amigo desde a infância e foi o único que apoiou seu
casamento com HAYA. Assim como JOEL, Também prestava serviço no Templo quando
não estava trabalhando como construtor.
- Não vejo a hora de
voltar para o meu tear e para minha HAYA.
- Sempre foi um homem de cujos
sentimentos estão à vista de todos, JOEL. E o pequeno rebento, já está lendo a
Torah?
- HAYA o ensina todas as
manhãs e a noite eu lhe conto a história de nossos antepassados e como Adonai nos livrou do Faraó.
- Bem que ele poderia nos
livrar destes romanos também...
- Cuidado com as palavras,
velho amigo. Sua amizade com este tecelão já lhe é motivo o suficiente para
manchar sua reputação. Se quiser deixar de ser um sacerdote comum, deve refrear
a língua e...
- Deixe disso. Sabe muito bem
que há mais sacerdotes nesta sala do que o Sinédrio pode suportar. E estou
farto de suportar o Sumo...
- Vocês dois – disse o chefe
dos sacerdotes. Estão liberados. Não foram sorteados.
- Uma semana de preparação
para nada, NATHAN? É o terceiro ano que sou dispensado do serviço e...
Mal teve tempo para terminar
sua frase quanto o chefe dos sacerdotes disse:
- Talvez devesse escolher
melhor suas companhias SAUL – disse olhando com olhar de repulsa a JOEL.
- Este é um bom homem.
Trabalha para suster sua família. Arca com os tributos do Templo todos os anos
e mesmo sendo tecelão ofereceu um cordeiro pela expiação de sua mulher. Um
cordeiro! Sei de alguns de vocês que mesmo tendo posses ofertam pombas
magras...
O chefe dos sacerdotes estava
enfurecido, com olhos entenebrecidos e de punhos cerrados. E disse:
- Só Adonai é bom! Meça bem suas próximas palavras, SAUL. Afinal de
contas, são dias onde o menor dos deslizes trazem a luz o anátema que vive nos pecadores.
- Vamos embora, SAUL – disse
JOEL segurando-o pela túnica. Vamos!
Aos tropeços saíram os dois,
rumo à Cidade Baixa.
- A loucura lhe atingiu, SAUL?
Quer que sejamos condenados? Mulher e filho me esperam em casa, e mais um que
está por chegar. Já tenho motivos por demais para ser motivo de perseguição.
- Acalme-se homem. NATHAN não
tem poder algum no Sinédrio. E no mais, estou contente que você vai voltar para
casa. Eu não iria aguentar uma semana seus suspiros e lamentações por estar
longe de sua HAYA– disse, aproximando o rosto a JOEL com um semblante sério.
Olharam um nos olhos do outro,
como que se estudando por alguns segundos. Encostaram a testa um no outro com olhos
cerrados e desataram a rir em alta voz, caindo sentados um de costas para o
outro.
- Você ainda vai arrumar um
túmulo de pedras nesta cidade para nós, SAUL, Hahaha!
- Venha, eu te acompanho até a
Porta do Monturo.
- Se for até a minha casa, eu
lhe sirvo vinho fresco.
- Eu não posso recusar o
vinho, afinal de contas...
- “... O VINHO QUE ALEGRA
CORAÇÃO DO HOMEM!” – disseram juntos. E tornaram a rir apoiando-se um no outro
para se levantarem. E foram-se tão descontraídos por serem dispensados do
serviço que JOEL nem se lembrou que tinha planejado ir ao pisoeiro buscar
dinheiro para a compra da lã.
Ao chegar próximo à Cidade
Nova, onde havia comércio de lã, escutaram gritos de multidão. Curioso, JOEL
foi passando entre as pessoas e com enorme dificuldade foi lentamente passando
entre as pessoas para ver o que acontecia ali, quando foi barrado por um
soldado romano.
- Parado aí, judeu! Não pode
passar!
- O que aconteceu aqui, bom
soldado?
- Alguns dos seus fariseus
mataram alguém por blasfêmia contra esse deus de vocês.
Nos últimos tempos alguns
fariseus passavam o dia testando as pessoas em busca de algo errado em suas
vidas. Sionistas, estavam certos de que Deus iria mudar a sorte do povo quando
os anátemas fossem punidos e assim, a terra fosse devolvida completamente ao
povo judeu. Muitos conhecidos de JOEL haviam sido julgados em tempo recente e
agora mais do que nunca, desejava estar longe confusões. Mas desta vez o
tumulto estava próxima a sua casa. Que
não seja nenhum conhecido, pediu em oração silenciosa.
- Abba!
- Filho! Está tudo bem? Onde
está sua mãe?
- Ela... ela... – estava sem
fôlego e soluçava muito em meio ao pranto.
- Diga, onde está sua mãe!
O menino então se agarrou ao
pai e começou a gritar. SAUL pôs a mão no ombro do amigo e disse:
- JOEL. É... HAYA!
- Onde?
E levando a mão direita ao
rosto, apontou para o monte de pedras. Não
pode ser! Olhou para o braço que estava para fora da pilha de pedras e
reconheceu o anel que dera a esposa. Não conseguiu dizer nada. Engasgando as
palavras caiu de joelhos abraçando o filho que gritava copiosamente. Seus olhos
pareciam querer pular para fora da face e correr em direção a sua mulher. Minha... HAYA. Minha... vida.
As pessoas que estavam em
volta cochichavam e apontavam o dedo para os dois abraçados em prantos. É a mulher do tecelão JOEL, diziam entre
si. Certo fariseu de nome NICODEMOS, acompanhado de alguns homens,
posicionou-se ao lado do monte de pedras e começou a dizer:
- Hoje a vontade de Adonai foi cumprida neste lugar. Segundo
duas testemunhas, esta mulher foi acusada de blasfêmia e por isso foi condenada
á morte. A ira de Adonai foi apaziguada.
Amém.
- Amém! Maldita, seja! –
repetiu a multidão.
SAUL, enfurecido gritou:
- O que fez esta mulher para
ter sido condenada? Diga!
O fariseu olhou para o homem
que lhe perguntava e vendo JOEL e seu filho ao chão, disse:
- Esta mulher, HAYA, esposa de
JOEL, o tecelão, foi acusada por dizer que o filho de seu ventre era prometido
de Adonai a Israel, o Messias – e
rasgou um pedaço de sua túnica, o que foi seguido por muitos outros. Ela foi
julgada por Adonai e isso é motivo de
alegria, pois Adonai falou ao povo –
e a multidão que cerceava repetia palavras em adoração ao seu deus.
JOEL nada ouvira do que foi
dito. Estava atordoado por demais para prestar atenção em outra coisa que não
fosse em HAYA e no pequeno que estava em seu braços soluçando. O sol escaldante
fazia com que suor e lágrimas escorressem por seu rosto. O mundo parou. Acinzentado
e embaçado era agora seu mundo. Ouvia apenas os batimentos de seu coração.
Imagens de sua infância, quando conhecera HAYA passavam lentamente. A última
vez que estivera numa cama com a esposa... Sua boca aberta de desespero não
produzia som algum. Apenas desespero. O menino por sua vez, agora fazia
silêncio e prestara atenção em tudo que era dito pelo fariseu. Seu ódio era
palpável.
- NICODEMOS, quem são as
testemunhas? – gritou SAUL.
- São romanos.
Não havia o que discutir. Os
soldados romanos desprezavam os judeus e muitas vezes intentavam contra eles
jogando uns contra os outros apenas por diversão. Não podiam simplesmente
atacá-los, pois o governador queria reger a Judéia sem conflitos com o povo e
por isso os soldados eram proibidos incitar o povo a se rebelar contra o
Império.
Pouco a pouco a multidão
começou a se dispersar e somente o choro de JOEL pode, então, ser ouvido. Os
soldados foram partindo, em grupo, pois temiam serem surpreendidos por algum
possível revoltado. O menino desprendeu-se de seu pai, que foi abraçado pelo
amigo. Juntos choravam e clamavam por ajuda divina.
O menino foi em direção ao
corpo da mãe em passos curtos. Limpou as lágrimas que o vento não secou e secou
o que escorria de seu nariz. Um cachorro rodeou o monte de pedras e começou a
cheirar e lamber a mão de HAYA. Quando o menino chegou próximo, o cão olhou nos
olhos do menino e como se pudesse compreender a dor do menino, foi embora
balançando o rabo. O menino pegou uma pequena pedra do monte e apertou com toda
força que tinha. A mãe sempre lhe tratara com tanto carinho e até mesmo na hora
de repreendê-lo fazia com muito amor. Por
quê? Abriu o mar com enorme facilidade e não pode salvar minha mãe. Por quê?
– As lágrimas voltaram a rolar. Encheu o
mundo de água para acabar com maldade, mas deixou os romanos. Por quê? –
apertava a pedra com maior força que antes. Um pouco de sangue escorreu pelos
seus dedos e uma gota alcançou o chão. Minha
mãe era temente. Onde estava o seu anjo? Maldito seja...
Antes que terminasse de dizer,
ouviu. Não pode ser! Deixou a pedra
colorida pelo seu sangue cair ao chão. Estava incrédulo e paralisado. Olhava
para o monte de pedras sem entender como aquilo era possível... Eu... ouvi! Um corvo desceu planando com
as asas negras abertas e suavemente pousou sobre o braço de HAYA. O corvo bateu
com o bico nas próprias penas da asa direita e em seguida olhou o garoto.
Balançava a cabeça de um lado para o outro como se estivesse estudando o menino
por vários ângulos. O menino então percebeu que aquele corvo tinha penas
brancas debaixo do bico.
- CRACK! – grasnou o corvo olhando
nos olhos do menino. Bateu o bico no braço de HAYA por três vezes e conseguindo
um pedaço de sua carne e saiu voando como uma flecha.
O menino acompanhou o pássaro
subir e subir. Desceu os olhos para o monte de pedras e aproximou-se lentamente
para assegurar-se do que tinha ouvido. E ouviu. Mas fraco desta vez, mas ouviu.
- Abba! – gritou com todas as forças que tinha.
