- Você ouviu
isso?
- Ouvi o que? Desde quando você tem medo
da noite, CLÁUDIUS? Ainda não se acostumou a fazer rondas noturnas?
- Isso não é
uma ronda, LÚCIUS. Não estamos sequer escalados para o serviço desta noite. Não
sei como me convenceu a vir até aqui...
- Até quando
você quer ficar nesta cidade de merda? Até quando ficará comendo poeira em meio
a esta gente atrasada? Meu lugar é no Senado, ao lado de meu pai e não aqui.
- Você é filho
de um membro do Senado, não eu. Você quer provar para seu pai que é capaz de
sobreviver neste mundo bárbaro e não eu. Além disso, se nos metermos em
confusão esta noite o mais perto que chegarei de Roma novamente, será numa...
UUUUUUUUUUUUUU...
- Com mil
demônios! Agora você ouviu?
- Pare de se
assustar com o vento, CLÁUDIUS. Ou eu mesmo silenciarei você!
- Que Zeus nos
proteja esta noite! – disse o homem que não tirava a mão do cabo da espada
embainhada.
- Depois que
nosso informante nos der alguma informação que possa ajudar na localização dos
revoltosos, o próprio Zeus irá descer do Olimpo para nos receber em Roma.
- Onde você
conseguiu este informante? É confiável? Como sabe que não será traído esta
noite?
- Me responda primeiro,
CLÁUDIUS. Quem é a pessoa que recebe mais visitas nesta e em qualquer outra
cidade e, com isso, conhece muita gente?
O decurião em
sua farda mais parecia uma criança a tremer.
- O...
governador?
- Uma puta,
meu amigo medroso. Da boca de uma mulher de prazeres você pode ouvir os
segredos de homens cautos e incautos, de homens ricos e homens pobres, de
civilizados e de bárbaros, mentiras e também verdades.
LÚCIUS estava
certo de que aquela noite seria um divisor de águas em sua curta vida militar.
Esperava ser promovido a centurião e, assim, impressionar seu pai que lhe
prometera apoio para chegar ao Senado. Embora não houvesse quebra da Pax Romana nos últimos meses, o cheiro
de conspiração por parte dos judeus era sentido em todos os cantos da cidade.
Uma informação privilegiada poderia dar fim a um possível conflito ainda não
reiniciado. Porei fim a qualquer
pretensão de ataque ao Império e poderei voltar mais rapidamente a Roma.
O silêncio foi
interrompido pelo crocitar
de um corvo que sobre uma árvore acompanhava atentamente os dois soldados na heroica
empreitada.
- LÚCIUS!
LÚCIOS
desembainhou a espada e apontou para o lado de onde veio o crocitar do animal.
- Que PRIAPOS
te foda, CLÁUDIUS! É apenas uma merda de um corvo.
LÚCIOS
abaixou-se abruptamente, pegou uma pedra e tacou na direção do animal. Mesmo
tendo errado, o corvo afugentou-se dali.
- CLÁUDIUS,
lembre-me de lhe recomendar para servir ao exército de HADES quando eu
conseguir meu lugar no Senado!
- Eu não quero
ser senador! Eu não quero ter que me explicar a noite inteira por qualquer
merda que acontecer esta noite. Que a fúria de Zeus caia sobre esta sua ideia
de merda!
CLÁUDIUS virou
as costas para LÚCIOS e saiu andando em passos firmes. Sua raiva poderia ser
sentida em cada passada, que como um Titan caminhava e levantava poeira pela
noite escura. Antes que LÚCIUS pudesse chamar de volta seu parceiro, CLÁUDIOS
sumiu na escuridão. Agora estava só. Que
se dane! Esta noite será a primeira em que os deuses irão me cobrir de glórias!
Mas não seria tão fácil assim.
A noite já
estava por acabar e sabia que dentro de poucas horas o sol traria sua luz. O
informante demorara mais do que fora combinado pelo sussurro quente e molhado
da boca da prostituta. E se ela me
enganou? E se esta puta de merda mentiu para mim, apenas para que eu a pagasse
mais pelos seus serviços sexuais? Cerrou os punhos e rangeu os dentes. Ela se encontrará com minha lâmina antes que
possa colocar outro homem em sua bainha! Sentou-se numa pedra que estava
aos pés de uma árvore para descansar antes de começar o regresso para casa. O
vento que descia de um monte próximo dali, urrava entre as árvores que por sua
vez lançavam folhas que subiam e desciam dançando no ar. Quando decidiu
levantar-se viu um vulto caminhando em sua direção. Então, decidiu voltar, CLAÚDIUS... Mas o vulto era de alguém maior
do que o decurião romano.
- Quem vem lá?
Um homem alto
e largo caminhava lentamente em direção do soldado romano, mas sem dizer uma
palavra sequer. Seu vulto foi ficando mais visível a medida que caminhava.
Parecia que estava sozinho, mas poderia haver outros escondidos na penumbra.
Apreensivo, LÚCIUS desembainhou sua espada e tornou a perguntar:
- Quem,
demônios, vem nesta escuridão de merda!? Diga, ou em nome de CÉSAR eu mesmo
farei o trabalho do CARONTE esta noite!
O homem
continuava a se aproximar como se não temesse as ameaças do soldado.
- Sou o seu
informante, romano. Guarde sua espada para que você não acabe se cortando.
- Seu pedaço
de merda, sabe com quem está falando!? Sou LÚCIUS ANTÔNIUS CRASSUS, filho de GAIUS
AUGUSTUS CRASSUS, da casa de MARCUS LICINIUS CRASSUS!
- É deu para
notar... – disse com desdém. Dizem por aí, por sussurros eu diria, que uma maçã
não cai longe da macieira. É verdade?
O que!? LÚCIUS não sabia se estava sendo
zombado ou elogiado pelo homem de porte avantajado que surgira da escuridão.
Sua família carregava a insígnia de muitos feitos heróicos como também de
erros... crassos. Preferiu não
discutir com aquele homem que tinha o dobro de massa em relação ao soldado.
- A puta
fedorenta judia disse que você tem algo para mim. O que você sabe que eu
deveria saber, judeu?
- É isso que
ela é para você, romano? Uma puta
fedorenta?
- Eu não vim
aqui para discutir se a merda da sua irmã, mãe, avó, seja lá quem for aquela
puta, está fedendo. Vim aqui porque aquela puta me informou que você sabe algo
dos revoltosos que interessa ao Império. Diga o que você sabe!
O informante,
que ouvira o desabafo do soldado romano de cabeça baixa, coçou a barba rala que
cobria seu queixo de orelha a orelha e disse:
- Eu gostei de
você romano. Gostei de você mais do que do seu outro amigo que aqui estava...
- Desde quando
você estava aqui!? – disse espantado.
-... E é por
isso que farei melhor do que apenas lhe dar as informações que deseja. Irei
levá-lo ao local da reunião e poderemos ouvir quais são seus planos e quando
planejam atacar. Sim, eles irão atacar.
Atacar? Dentro de LÚCIUS fervilhavam
dúvidas e pensamentos sobre a possibilidade de sucesso daquela empreitada. O
informante permanecia imóvel. LÚCIUS sorriu para o informante e lhe perguntou:
- O que você
ganha com isso, judeu? Entregar sua própria gente... Vocês são um tipo peculiar
de bárbaros.
O informante
aproximou-se do soldado, arqueando lentamente o corpo e próximo de seu ouvido
sussurrou:
- Meu preço... Quero apenas um pedaço.
- Um pedaço?
Na manhã
seguinte, três soldados romanos se encontravam naquele mesmo lugar.
- Foi aqui que
você o deixou, CLÁUDIUS?
- Sim,
capitão. Foi exatamente aqui que...
Enquanto
falava olhou para a árvore que na noite anterior fora abrigo de um corvo que
curioso observava ele e LÚCIUS. Para seu espanto o corvo estava novamente ali
olhando em sua direção. O animal inclinava a cabeça para direita e para
esquerda em movimentos rápidos. Agora com o auxílio da luz do diz pode observar
que o corvo com suas penas negras como a noite, tinha algumas penas brancas
como a neve abaixo do bico. Mas que merda
de corvo maldito... Fixou o olhar
para o animal que tinha algo preso em suas garras. Um pedaço de carne? Algum animal virou desjejum deste corvo... O
corvo pressionou a pata sobre o pedaço de carne para dar uma bicada e foi ai que
percebeu:
- É uma... orelha.
