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- Silêncio! – disse o ancião.

Faltava menos de duas horas para o dia amanhecer, quando enfim chegou o último dos líderes do movimento. Ele era um homem alto e muito magro. Dava a impressão de que a qualquer momento iria cair de fome. Diziam que ele servira como sacerdote auxiliar em outra época. Mas ninguém ousava falar sobre isso diante dele. O vento lhe roubou o sorriso numa tarde de outono – sussurravam ao pé do ouvido. De fato era um homem duro, marcado por um passado tão obscuro quanto as trevas que hoje pairam sobre seus olhos. Não era de muito falar. Mas quando abria a boca o mundo a sua volta fazia silêncio fúnebre para que nenhuma palavra se perdesse.

- Desde os dias de nossos antepassados – começou a dizer - que os dias que hoje batem em nossas portas são aguardados. A oportunidade que nos é dada é comparada com a que foi dada a Moisés numa terra estranha. A nós é dada a chance de mudar para sempre o destino da terra de nossos pais. Outrora fomos cativos numa outra terra. Agora nossa terra é cativa diante de nossos olhos. Se a terra não é livre, tampouco somos homens livres.

A pouca iluminação do ambiente somado ao caráter secreto daquela reunião, criava uma tensão entre os ouvintes, mas por se tratar de quem falava, todos se mantinham atentos ao discurso.

- Muitos de nossos irmãos pereceram em outras tentativas de limpar nossa terra do domínio estrangeiro. Terra que hoje é manchada com o suor e o sangue de nossos irmãos. Nossos filhos são aos poucos atraídos por essa cultura do livre prazer e com o passar do tempo vão se esquecendo quem nós somos. Ou éramos... Essas academias de ensino são uma afronta a tudo aquilo que acreditamos. A miúde somos moldados pelas mãos de um povo dominador que como um artífice molda o barro para lhe dar a forma que deseja.  E nós, assim como barro, assistimos a forma que nos é dada sem poder nos manifestar.

Ele se levantou de sua cadeira e começou a caminhar entre os demais líderes enquanto afanava a própria barba branca. Todos mantinham os olhos atentos a cada passo do homem esguio e aguardavam o que ele faria em seguinte. Caminhou então adiante dos demais ouvintes e passando pelo primeiro, deu-lhe uma bela olhada. Voltou a caminhar e passou pelo segundo, pelo terceiro e parou diante do quarto. Olhou em seus olhos e continuou a caminhar. Ele está vindo em minha direção. Que não pare diante de mim! Merda! Por que me olha com este olhar seco e vazio? O que quer de mim?

- Qual é o seu nome, irmão? – perguntou o temido homem de magreza espantosa.

- CALEBE, irmão de BAR...

-  ...RABÁS.

- Sim.

- Diga-me CALEBE, irmão de BARRABÁS, o que veio fazer aqui esta noite? – disse o homem encurvando-se como um caniço soprado pelo vento na direção de CALEBE.

Que tipo de pergunta era essa? Todos estavam aqui com um único propósito, o de livrar Israel das mãos do dominador estrangeiro. O que ele pretende com esta pergunta? Já não era um menino. Alcançara a idade de homem maduro segundo a tradição e mesmo assim tremia como se estivesse enfrentando um de seus demônios da infância nos olhos daquele homem. Respirou fundo e erguendo a cabeça tentando desviar-se dos olhos penetrantes de seu inquisidor, responde:

- Estou aqui para lutar pelo meu povo e morrer por ele se preciso for! – disse o lema dos Guerreiros da Terra, como se denominavam.

- E... como? – disse o homem que agora cerrava os dentes num sorriso sádico.

Fez-se novamente um silêncio ensurdecedor na sala da assembléia. Pensou ter conseguido ouvir o estalar das chamas no luzeiro. CALEBE não sabia bem como poderia ser útil a causa dos Guerreiros, mas queria ver sua terra livre do domínio romano. Como? – a pergunta ressoava em seus ouvidos de forma alternada, cada vez em um lado, ora mais alto ora mais baixo e por fim dentro de sua cabeça.

- Pois bem. Eu lhe digo como, CALEBE, irmão de BARRABÁS – disse virando-se para os outros membros da assembléia, andando em passos curtos e ainda segurando a barba branca. Feridas novas e feridas velhas! Hoje em nosso país dois são os grupos que mais atraem seguidores. O movimento de restauração pela tradição religiosa, em sua maioria composta por Fariseus, e os grupos de errantes rabinos dados ao messianismo...

Sua fala era carregada de pesar e desprezo pelos grupos que pela tradição dos Pais, isto é, pela religião no deus dos Hebreus, buscavam restaurar a soberania do povo em sua terra. O vento que lhe roubara mais do que o sorriso. Roubou-lhe também a fé...

- ...E como bem sabemos tais grupos são liderados por homens pouco capacitados para guiar nossa comunidade para fora deste estado caótico em que hoje nos encontramos. É neste ponto que cada um de nós irá agir, disseminando nossas ideias entre tais grupos e substituindo os fracos lideres destes grupos. Cada um de nós será enviado a um destes grupos. Cada um será o representante de todos nós. Em cada um de vocês nossa esperança está depositada. Á miúde, Fariseus e grupos errantes estarão em nossas mãos e seremos numerosos para quando o dia chegar. Feridas novas, meus irmãos...

- Uma outra pergunta, CALEBE, irmão de BARRABÁS – virou-se na direção do homem, girando sobre os calcanhares. Qual é o maior temor dos governantes romanos?

- A quebra da Pax Romana – respondeu rapidamente.

- Correto, CALEBE, irmão de BARRABÁS. Nossa terra também possui feridas velhas, tão antigas quanto a dominação estrangeira. Em nossa terra residem aqueles que também não são desejados por grande parte do povo judeu.

- OS SAMARITANOS! – bradou alguém assentado mais ao fundo.

- Sim, os samaritanos... Para descentralizar as forças do exército romano residente em nossas cidades, incitaremos uma pequena guerra entre judeus e samaritanos. Atacaremos viajantes judeus e samaritanos nas estradas. Causaremos medo e terror entre os comerciantes que precisam atravessar as estradas com sua mercadoria. Ninguém em sã consciência ousará fazer a travessia sem escolta romana. As cidades, por sua vez, ficarão cada dia menos protegida, sem contingente militar. Em breve, tomaremos Jerusalém. Nenhum romano será poupado. Saciaremos a sede da terra com o sangue dos invasores e devolveremos a terra ao povo!

Os homens presentes não gritaram em aprovação ao discurso, mas ergueram o braço direito para cima, com os dedos eretos e unidos até que o homem magro e alto também o fizesse. Em seguida desceu o braço como que uma espada cortando do alto para baixo. Logo após todos repetiram o gesto. O homem magro caminhou até um lugar desocupado e tomou assento. Um outro homem também alto, porém muito forte, levantou-se e foi até o centro da sala. É ele! É BARRABÁS! E começou a falar:

- Bem disse, SAUL. A terra será nossa outra vez! Por ela lutar e morrer se preciso for! A cada um de vocês será dada uma pequena espada, pouco maior do que uma faca. Ela ficará perfeitamente oculta debaixo das vestes de vocês, presa no cinto junto ao corpo. Os romanos usam couraça fervida, mas até mesmo a melhor couraça possui fendas. E nessas brechas seremos o mensageiro da morte ao povo romano. Vocês só terão uma única chance quando chegar a hora e por isso aproveitem-na bem.

O grande BARRABÁS sentou-se novamente. O ancião que até agora assistia tudo apenas balançando a cabeça concordando com o que era dito, caminhou lentamente com uma caixa de madeira nas mãos e a pousou sobre a mesa.

- Cada um de vocês será enviado com uma missão específica. Poderão ser enviados para o mesmo lugar, para uma mesma missão quem sabe... Nesta caixa está o nome da cidade e a missão que cada um de vocês irá tirar por sorte. Sim, por sorte. Caso encontrem algum irmão Guerreiro da Terra na cidade a que foram destinados, não poderão dizer ao outro qual é a sua missão de vocês, para o caso de algum de nós sermos descoberto não atrapalhar no desenvolvimento do plano. ‘Morrer por ele se preciso for...’, lembrem-se disso.

Com as mãos tremulas abriu a tampa da caixa e afastou-se da mesa. Um a um foram levantando-se os membros da reunião e formaram uma fila para pegar o papel que lhes era destinado no plano de salvação da nação. Havia muita responsabilidade nas tarefas distribuídas ali e cada pessoa sabia que seria um elo fundamental para que tudo desse certo. O que MATATIAS iniciara a muito tempo poderia ser concluído naqueles meses que seguiriam a partir daquele dia.

Pegou o papel dobrado e sem abri-lo caminhou de volta para o lugar onde estivera sentado desde o início da reunião. Olhou para o lado e viu que a pessoa que se assentara ao seu lado abriu seu papel e após ler sorriu discretamente. Deve ter ficado com uma missão importante. Olhou para o pequeno papel que estava em e sua mão e abriu a primeira dobra, a segunda e depois a terceira e, então, o texto se fez visível aos seus olhos. Galiléia. Em você irei lutar e morrer se preciso for... Serei como BARRABÁS, famoso entre os homens e temido pelo inimigo.

Quando todos já havia tomado assento o silêncio voltou a se fazer presente. O esguio SAUL tornou a ficar de pé e olhando para BARRABÁS, acenou com a cabeça. O desproporcional BARRABÁS saiu da sala por uma porta lateral e regressou arrastando um homem encapuzado. Um soldado romano?! BARRABÁS retirou-lhe o capuz o jogou no meio da sala como se fosse um saco de palha.

- SHAMIR ISH’SICARI! – gritou o gigante BARRABÁS.

SHAMIR ‘homem... do punhal’!? Saiu do fundo da sala um homem não muito alto que lentamente se direcionou até o homenzarrão que o chamara. BARRABÁS entregou-lhe uma pequena espada e disse:

- Mostre aos nossos irmãos como matar um porco escondido numa couraça.

O homem segurou a pequena espada, um tanto enferrujada, e a ergueu a altura dos olhos, como se estivesse verificando o fio de corte. Em seguida rodeou o soldado romano que por sua estava com o rosto desfigurado. O espancaram antes de trazê-lo até aqui. O soldado tremia e nada podia fazer, pois suas mãos estavam atadas por uma corda. O que!? Percebeu que lhe faltava uma orelha. Mas esta ferida é recente... O soldado tremia. Tremeu tanto que uma fonte urina brotou do meio de suas penas enquanto seu carrasco circulava em sua órbita.

- Vejam! Até os porcos romanos tremem quando encaram um mensageiro da morte! – ria-se BARRABÁS.

O dançarino da morte continuava sua dança com a espada pendendo em direção ao chão. O soldado parecia que iria sofrer um ataque epilético a qualquer momento. SHAMIR parou por um instante e começou a rodeá-lo girando pelo sentido contrário. A dança da morte continua. Seus olhos estavam avermelhados, sua a boca escancarada com um filete de saliva que fugia do destino que se aproximava a cada segundo do militar romano. Como se a música que dançara tivesse acabado, SHAMIR e sua espada pararam diante do soldado e aproximando-se lentamente, encostou sua testa na testa do soldado que agora respirava ofegantemente, perdendo o ar vez ou outra. Encostou a espada numa fenda da couraça e deixou seu próprio peso fazer o serviço deslizando a espada pelas entranhas do soldado. Ferido, o soldado romano ajoelhou-se para esperar a vinda do barqueiro para levar-lhe para o outro lado. Seu assassino retirou a espada de seu ventre e a soltou. A espada ensanguentada bateu no chão espirrando sangue e vibrando a cada batida que dava no chão até que parou. O homem que matara o soldado iniciou seu retorno para o lugar de onde viera do mesmo modo que veio, sem sequer olhar para alguém. Ao passar por SAUL, o homem de dedos longos e finos segurou-lhe pelo braço e como se o consolasse apalpou-lhe o ombro.

- Bom trabalho – disse SAUL com lágrimas nos olhos. Começou a vingança de JOEL.

A vingança de... JOEL?